ultrassonografia gestacional de coelhas
- 27 de mai. de 2022
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Fala sério: quem não acha uma gostosura esses bichinhos fofos de orelhas compridas, pelo macio, autolimpantes e silenciosos? Dependendo do perfil do tutor, esse pode ser o pet perfeito para vários ambientes e isso tem se mostrado um fato: a procura e criação de coelhos para o mercado pet tem crescido rapidamente. No ano passado, uma reportagem do G1 apontou que a criação de coelhos para o mercado pet foi de 242 mil animais/ano. Procurei uma criação local de coelhos para ter uma ideia também, e acreditem que eu me assustei com o número de matrizes, apesar do criador pedir para manter esse número em sigilo.
Um pet tão procurado assim pelos tutores vai exigir conhecimento técnico de nossa parte, como médicos veterinários, para a realização de exames que possam ajudar esses pets e seus tutores na busca de diagnósticos e monitoramento de doenças. Lá no NAUS, já temos um curso de ultrassonografia voltado totalmente para pets não-convencionais (você pode saber mais clicando aqui). E não é que recentemente, um amigo entrou em contato comigo dizendo: "amigo, acho que a Pipoca, minha coelha, está grávida, e quero fazer ultrassom!" E agora? Pois bem, entrei em contato com colegas ultrassonografistas, e não consegui nada que pudesse me ajudar nesse desafio, então pesquisei artigos e entrei em contato com a Associação Científica Brasileira de Cunicultura, e a Médica Veterinária Kassy Silva me ajudou de forma grandiosa, cedendo também alguns trabalhos. E como adoro os seguidougs, vou resumir e compartilhar com vocês o que de mais importante encontrei nos trabalhos que pesquisei e que me foram enviados.
Um detalhe importante: assim como temos grande variação nas raças de cães e gatos, existe uma grande variedade de raças de coelhos, com tamanhos bastante diferentes, isso pode gerar diferenças nas medidas e nos dados obtidos.
diferenças
Pra começar, sabemos que cada espécie das quais trabalhamos, é diferente uma da outra, com particularidades anatômicas e fisiológicas específicas.
Com relação a anatomia, as coelhas possuem dois cornos uterinos, mas o útero não possui corpo: os cornos se unem na cérvix, legal né?

O ciclo estral é caracterizado como poliéstrico, e a ovulação é induzida pela cópula (assim como ocorre nas gatas). Se no estro não houve cópula e consequente fecundação, em aproximadamente sete dias, um novo estro acontece (que rápido!). A gestação também é bastante rápida, e dura em média 30 dias, e a placenta dos coelhos é diferente, do tipo zoonária discoidal (enquanto dos cães e gatos é zoonária circular). Como os coelhos tem a pele muito macia, os criadores costumam fazer o diagnóstico da gestação por palpação abdominal, entre 10 a 12 dias após a cruza. Porém, vamos ver que ultrassonograficamente podemos adiantar este diagnóstico!
o diagnóstico da gestação
O diagnóstico precoce da gestação é feito através da ultrassonografia. Os trabalhos de Polisca et al (2009) e Fraser (2015) identificaram as vesículas embrionárias em cinco dias de gestação. No trabalho de Gutierrez & Zamora (2004) as vesículas embrionárias eram visualizadas no dia sete. Claro que tudo isso vai depender da qualidade da imagem, da experiência do operador e da cooperação da paciente.
O mapeamento colorido Doppler da vesícula embrionária (artéria uterino-placentária) e do cordão umbilical podem ser caracterizados a partir do dia 10, antes mesmo deste ser caracterizado ao modo-B, que ocorre no dia 14 (Polisca et al, 2009).
Um detalhe legal: apesar das diferenças das raças, o estudo de Gutierrez e Zamora (2004) não apontou diferenças nas mensurações das vesículas embrionárias (só eu acho que eles poderiam ter feito uma fórmula de idade gestacional baseada no diâmetro das vesículas embrionárias?)
organogênese
Uma característica em comum dos trabalhos que encontrei é a preocupação em medidas, e pouco detalhe relacionado a organogênese, não dando detalhes da caracterização dos órgãos. Os poucos dados de organogênese que consegui obter pelos trabalhos resumi na tabela abaixo.

diâmetro biparietal
Essa medida, clássica dos exames gestacionais de cadelas e gatas, pode facilmente ser obtida nos fetos das coelhas, a partir do 18° dia de gestação, e a mensuração é feita da mesma forma, medindo a superfície esterna dos ossos biparietais, perpendicularmente à linha hiperecóica que separa os hemisférios cranianos. Através do diâmetro biparietal, obtemos dois dados: idade gestacional e dias para o parto. O calculo de idade gestacional foi elaborado por Fraser (2015) que fez as mensurações nos dias 18, 21, 24 e 29 da gestação. Já a fórmula de dias para o parto foi obtida por Mazandarani et al (2021). Na verdade, ele fez fórmulas com várias mensurações (diâmetro abdominal, comprimento femoral, etc).
Ambos os dados são obtidos através das fórmulas indicadas abaixo.

estudo Doppler

Sim, temos estudos Doppler para gestação de coelhas. Polisca et al (2009) fez um estudo bem legal, tanto da vesícula embrionária quanto do cordão umbilical. O estudo da vesícula embrionária mostra uma elevação progressiva do índice de resistividade a medida que a gestação evolui. Já o índice de resistividade da artéria umbilical é inversamente proporcional à medida que a gestação evolui, sendo descontínuo (com diástole zero, assim como em cães em gatos no início da gestação) até o dia 18, e baixando proporcionalmente até 0,73 no dia 30 (dia em que é previsto o parto das coelhas). Os estudos que encontrei não demonstram um "ponto de corte" que indica trabalho de parto iminente (como valores abaixo de 0,7 indicam trabalho de parto iminente na cadela), mas pelo meu senso crítico, acredito que esses valores podem ajudar a confirmar a idade gestacional obtida pelas outras mensurações (vale a pena conferir os valores do IR de acordo com a idade gestacional, na tabela do trabalho da Polisca et al, 2009).

e como foi o ultrassom da pipoca?

Bom, a pipoca se comportou super bem e o gel quentinho ajudou ela a relaxar (e até cochilar) durante o exame. Fiz a tricotomia abdominal e uma leve umedecida com álcool na pele dela antes de aplicar o gel.
Consegui identificar cinco fetos (três em corno esquerdo - vídeo ao lado - e dois em corno direito). As frequências cardíacas foram surpreendentemente altas entre 227b.p.m. e 300b.p.m. em quatro fetos, e um dos fetos (o mais caudal de corno direito) teve frequência entre 133b.m.p. e 150b.m.p. Quanto a organogênese, deu para ver bem os globos oculares, as quatro câmaras cardíacas, uma estrutura hipoecóica cranial ao coração (que penso ser o timo), uma boa diferenciação ecogênica entre pulmão e fígado e uma estrutura tubular abdominal, cheia de líquido anecóico, bem grande (coelhos tem o ceco quem grande, será?).
Os diâmetros biparietais variaram entre 1,53cm e 1,6cm, e o Doppler da artéria umbilical indicou um índice de resistividade de 0,73 e 0,74.
o que conclui no exame da pipoca?
As mensurações do diâmetro biparietal, indicaram idade gestacional de aproximadamente 28,5 dias, e a previsão de parto era para aproximadamente 0,35 e 0,68 dias. Os dados dopplervelocimétricos da artéria umbilical também indicam idade de 29 dias e será que a baixa frequência cardíaca de um dos fetos (com relação aos demais) já não indicava trabalho de parto?
Pois bem, a Pipoca pariu cinco fetos depois de oito horas da realização do exame, então os dados coletados, bateram!
Abaixo vou deixar as referências que usei para criar este post! Leiam pois os trabalhos são bem legais e fáceis de ler!
GUTIERREZ, H. E. ZAMORA, F.M.M. Ultrasonography study of rabbits pregnancy. 8th World rabbit congress. Mexico, 2004.
CHAVETTE-PALMER, P. LAIGRE, P. SIMONOFF, E. CHERNÉ, P. CHALLAN-JACQUES, M. RENARD, J-P. In utero characterisation of fetal growth by untrasound scanning in the rabbit. Theriogenology 69, 2008.
POLISCA, A. SCOTTI, L. ORLANDI, R. BRECCHIA, G. BOITI, C. Doppler evaluation of maternal and fetal vesels during normal gestation in rabbits. Theriogenology, 2010.
FRASER, C.F., 2015. Pregnancy check and fetal developement on indonesian domestic rabbits by means of ultrasonography. Departament of clinic, reprodutiction and pathology faculty os veterinary medicine - Bogor agricultura university. Bogor, 2015.
MAZANDARANI, M. BARATI, F. FARAHMAND, K. HOSEINI, F. EGHBALSAIED, S. Ultrasound monitoring od pregnancy in mini-lop rabbits. Theriogenology, 2021.

