achados ultrassonográficos associados à distocia
- douglasrodrigomatt

- 11 de ago. de 2024
- 5 min de leitura
Apesar da maioria dos achados ultrassonográficos não preverem a chance de distocia ou não durante um trabalho de parto, alguns deles podem sim ligar um alerta por estarem diretamente ou indiretamente associados a situações de distocia. O exame ultrassonográfico, abdominal ou gestacional, é composto por diversas etapas e parâmetros de avaliação em que podemos presumir a possibilidade de uma distocia.
mas o que é uma distocia?
A distocia é a condição na qual o parto não pode acontecer de maneira normal, o chamado parto eutócico. Diversos são os fatores que podem levar a esta condição e muitos deles nem estão associados ao exame ultrassonográfico. Além disso, devemos lembrar que a distocia pode ter causas maternas ou fetais.
distocias de origem materna
As distocias de origem materna são aquelas nas quais a causa da distocia está relacionada à gestante, como a falta de dilatação do canal do parto, por exemplo: se não houver dilatação, os fetos não serão expulsos no momento do parto, caracterizando uma distocia.
Mas as causas de distocias de origem materna vão muito além disso. A estenose pélvica, por malformação, neoplasia ou má união de fratura pode impedir a adequada passagem dos fetos pelo canal do parto.
Desequilíbrios hormonais também favorecem à distocia, pois a dilatação da cérvix e a contração uterina responsável pela expulsão dos fetos é totalmente dependente de ação hormonal.
Outras condições das gestantes, como hérnias, estado nutricional e estresse podem interferir no parto.
Dentre todas essas causas de distocias de origem materna, a ultrassonografia pode contribuir em algumas delas, como identificar hérnias, identificar neoplasias que estenosam o canal do parto e a presunção da falta de contração uterina pelos achados cardíacos fetais.
distocias de origem fetal
As distocias de origem fetal são aquelas em que o(s) feto(s) são os responsáveis pela má evolução do parto. Geralmente, estão associados à grandes dimensões do feto, a um posicionamento prejudicial à expulsão pelo canal do parto ou pela presença de malformações fetais.
Nestes casos, o exame ultrassonográfico é essencial para caracterizar todas estas condições.
achados ultrassonográficos
Agora vamos pensar, dentre todas essas condições, quais achados ultrassonográficos podem estar associados a presunção da distocia.
neoplasias uterinas e vaginais
A identificação de neoplasias uterinas (principalmente em corpo e cérvix) bem como no assoalho vaginal é um achado extremamente importante, pois nessa condição, o ideal é monitorar a gestação até que os fetos estejam aptos a uma cesárea. Nestas condições, "esperar para ver se vai nascer" se torna um ato de negligência. O leiomioma é uma das neoplasias que podem acometer essas porções do trato reprodutivo, sendo uma neoplasia de musculatura lisa (presente na parede desses segmentos).
clique aqui para ler mais sobre leiomioma
Devo dizer que até hoje peguei poucas pacientes com neoplasia uterina e de assoalho vaginal, mas sobretudo nas cadelas resgatadas, o TVT é uma condição comum que pode gerar distocia além de contaminar os fetos.
presença de hérnias
Nós já temos um post sobre como as hérnias são negligenciadas (confira clicando aqui). Nas hérnias inguinais, é comum que haja a protusão do corno uterino durante ou após o cio, caracterizando assim uma histerocele. Se o corno uterino herniado estiver gestante, não há condições (mecânicas mesmo) de que o feto passe pelo canal inguinal e seja expulso de maneira eutócica. Nestes casos é comum que a gestação siga normal até o seu final mas não haja parto eutócico, sendo assim o ideal monitorar a gestação e decidir pela cesárea no momento certo.
temos um post para você aprender a fazer uma imagem especial de hérnias, clique aqui e confira!
ausência de oscilação da frequência cardíaca fetal
É sabido que a frequência cardíaca fetal tende a começar a oscilar antes do parto, em aproximadamente cinco dias antes do parto em cadelas e aproximadamente três dias antes do parto em gatas. Essa oscilação está associada a contração uterina e sua ausência pode ter duas interpretações: pós datismo (quando já passou da hora do parto) ou ausência de contrações uterinas.
Este achado é um verdadeiro desafio para o ultrassonografista e quem dará aa resposta é o monitoramento Doppler da artéria uterino placentária.
aumento do índice de resistividade da artéria umbilical
O monitoramento Doppler da artéria umbilical pode ser um verdadeiro desafio para o ultrassonografista porém, pode ser o parâmetro que vai definir se o trabalho de parto está evoluindo para uma distocia. O fisiológico é que o índice de resistividade da artéria umbilical baixe a medida que a gestação evolui até o trabalho de parto. Quando esse índice de resistividade deixa de diminuir e passa a aumentar, temos uma emergência, pois esse aumento indica pouca perfusão da placenta e consequentemente, redução na oxigenação do feto.
grandes dimensões fetais
Este parâmetro é de difícil presunção devido a grande variedade de tamanho de nossos pacientes. Para o parto, o diâmetro biparietal seria a medida fetal que mais influencia na possibilidade de parto eutócico, pois ele é a maior medida que se relaciona ao canal do parto. Sua mensuração adequada é crucial mas a sua aplicabilidade fica limitada uma vez que não mensuramos o quanto de dilatação tem nossas pacientes durante o parto.
malformações fetais
Algumas malformações geram as dimensões fetais e por isso podem estar associadas a situações de distocia, como é o caso da anasarca e da hidrocefalia. A hidrocefalia pode gerar aumento do diâmetro biparietal, prejudicando a passagem do feto pelo canal do parto.
Já a anasarca aumenta o volume geral do feto, pois o líquido se acumula em toda a região subcutânea.
clique aqui para assistir a uma aula post sobre anasarca
Devo dizer que já acompanhei casos em que o parto eutócico aconteceu tanto em fetos com anasarca quanto em fetos com hidrocefalia. Mas recomendo nestes casos o acompanhamento ultrassonográfico muito frequente e principalmente no caso da anasarca, não acredito que vale o risco de tentar o parto eutócico. Minha recomendação pessoal seria encaminhar para cesárea assim que os parâmetros ultrassonográficos forem condizentes.
outros exames
O exame físico é (ou deveria ser) indispensável para todas as pacientes gestantes. A palpação seria o suficiente para observar se há dilatação ou algum aumento de volume que promova estenose do canal do parto.
Já a radiografia abdominal além de ser mais precisa na contagem dos fetos pode evidenciar alguma deformidade da pelve, principalmente em animais resgatados, onde não temos informações de histórico de traumas ou de subnutrição durante a juventude, fatos que comumente promove deformidade na estrutura da pelve.
para saber de tudo isso
Existe uma aula em que falo somente de distocias no Curso de Ultrassonografia Gestacional do NAUS. Este curso é completo e todos os detalhes relacionados a malformações e determinação do momento do parto são discutidos, comigo e com a professora Cássia. As vagas estão abertas e para saber mais clique na imagem abaixo.



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